Entre os dias 18 e 20 de agosto, evento em Brasília (DF) teve a participação de 98 representantes de 50 projetos aprovados nos 38º e 39º editais do Fundo Ecos

Um projeto ecossocial é como um rio que flui. Nasce de um sonho ou simplesmente por teimosia. Passa por campos floridos, enfrenta terrenos rochosos e, muitas vezes, precisa fazer curvas para avançar. Um projeto, que é um rio, conflui com outros rios: parceiros do território que fortalecem iniciativas comunitárias, outros recursos captados para complementar o projeto inicial, ou até mesmo novas famílias e comunidades que são agregadas às ações.
O Fundo Ecos, idealizado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), apoia projetos ecossociais desenvolvidos em territórios de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, sobretudo no Cerrado, Caatinga e Amazônia.
Para promover a troca de saberes entre projetos, foi realizada em Brasília (DF), entre os dias 18 e 20 de agosto, a oficina Ecos dos Territórios, que reuniu 98 representantes de 50 projetos aprovados nos 38º e 39º editais do Fundo, apoiados pela Suzano, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). Os projetos tiveram início em 2025 e estão na reta final.
Experiências que valorizam territórios e saberes
Entre as experiências compartilhadas durante o encontro está a iniciativa Grota Quilombola, apoiada pelo Fundo Ecos e conduzida pela Comunidade Quilombola de Palmeiras, na Bahia. O projeto de turismo de base étnico-racial contribui para o fortalecimento das tradições a partir de um turismo sustentável, com a valorização da cultura, dos produtos e dos saberes da comunidade. O jovem quilombola Alexandre Feliciano participou do Ecos dos Territórios representando a iniciativa.

“Quando somos reconhecidos como quilombolas, passamos a carregar uma história e um saber. Mas o preconceito também passa a fazer parte desse reconhecimento. O Grota Quilombola surgiu como uma proposta de reverter esse preconceito, com o intuito de ressignificar nossa existência e valorizar o que é nosso, a nossa ancestralidade. É um turismo onde nos reconhecemos”, explica Alexandre.
Os projetos representados no evento estão localizados em 10 estados brasileiros e no Distrito Federal. Por meio do engajamento das comunidades, as iniciativas já impactaram diretamente 3.826 pessoas, sendo 2.381 mulheres, e envolvem 413 comunidades do Cerrado, Caatinga e Amazônia. As ações também qualificaram 2.500 pessoas, promovendo o uso sustentável de 22 mil hectares de vegetação nativa e o manejo agroecológico de outros 320 hectares, além de contribuírem para a reforma, construção ou estruturação de 15 agroindústrias.
Juventude, mulheres e sociobiodiversidade
Um projeto ecossocial também é um processo de entendimento do seu próprio papel na promoção da sociobiodiversidade. A jovem Karla Nogueira Santos, representante da Associação dos Agricultores Familiares e Agroindustriais de Palmas (Agrop), parceira da Escola Família Agrícola (EFA) de Porto Nacional (TO) na execução de uma iniciativa apoiada, conta sobre esse processo durante sua participação no Ecos dos Territórios.

“No meu trabalho, posso ajudar as comunidades locais e conhecê-las, mas, além disso, posso me integrar a elas. Por meio desse projeto, também me entendi, conheci mais sobre mim e sobre o que tem à minha volta na proteção do meio ambiente. É incrível poder participar desses projetos, fazer a diferença e trazer mais jovens para essa causa também”, comenta Karla.
Essa descoberta também aparece na experiência de Heloísa Ferreira, representante do projeto conduzido pela Casa Cerrado de Marias (DF) e estudante de Agroecologia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília.
“Esse projeto me ajudou a resgatar os saberes ancestrais, passando para a juventude. E assim eu estou podendo conhecer um pouco mais as plantas medicinais, não só pelos conhecimentos técnicos, mas também pelos saberes tradicionais e das casas dos povos de terreiro”, conta Heloísa.
Construir uma cozinha comunitária, implementar quintais produtivos, promover formações para a juventude, fortalecer a atuação de mulheres, fomentar produções agroecológicas, restaurar a terra, incidir sobre políticas públicas… os objetivos de um projeto ecossocial são diversos, mas a luta pela proteção da natureza, por justiça socioambiental e pelo bem viver é comum a todos eles. Entre os projetos apoiados, 32 fortalecem iniciativas protagonizadas por mulheres e 18 desenvolvem ações com jovens no contexto da educação do campo.

Saberes que fortalecem a comunidade
Para Arnold Fernandes Terena, do povo Terena, em Mato Grosso do Sul, o projeto “Koyónoti Vemeuxá: formando agentes ambientais Terena” contribuiu para fortalecer os saberes tradicionais e aproximar a juventude de seu território.
“Esse projeto ajudou a juventude Terena a conhecer mais o seu território, fazer o mapeamento e o manejo. Ele veio formar jovens ambientais Terena para que, junto com suas lideranças, caciques e mulheres anciãs, possam lutar pela proteção do nosso território e buscar melhorias para o nosso povo”, conta.

Segundo Arnold, o projeto também possibilitou que os jovens conhecessem lugares que antes desconheciam, inclusive áreas onde são encontrados remédios tradicionais, sempre acompanhados pelos anciãos. “Esse projeto ajudou na valorização da identidade do meu povo e na valorização cultural e territorial.”
A experiência de troca entre diferentes projetos também aparece na fala de Giselia Alves dos Santos, representante da Associação dos Agroextrativistas Familiares Solidários da Comunidade Quilombola do Povoado Km 1700, no Maranhão. Para ela, estar em contato com outras iniciativas permite compartilhar desafios, encontrar novas soluções e perceber que sonhos que antes pareciam individuais podem se transformar em construções coletivas.

“Foi um momento riquíssimo, que levarei na bagagem, porque são sonhos que estão se concretizando. E quando a gente consegue fazer a conexão com outros sonhos, vê que as comunidades estão despertando e que o sentimento de desenvolvimento nasce a partir do anseio dessas comunidades. Os desafios existem, mas também estão sendo superados no decorrer da execução dos projetos”, afirma.
Parcerias que chegam aos territórios
Mais do que democratizar recursos, o Fundo Ecos promove diálogos e valoriza conhecimentos produzidos pelas comunidades. Além de apoiar os projetos, o Fundo realiza atividades de formação e intercâmbios, como a participação dos povos na COP 30, realizada em Belém (PA) em 2025, e na VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, realizada em Brasília (DF) em 2026.
A parceria entre as instituições que apoiam as comunidades também foi destacada pelo BNDES durante o evento. A gerente de Meio Ambiente do Banco, Vanessa Mesquita, ressaltou a importância de iniciativas que aproximem os recursos das organizações que atuam diretamente nos territórios.
“É muito difícil para um banco conseguir chegar na ponta, chegar perto das comunidades. E é através de instituições como o ISPN que a gente consegue fazer isso. São projetos muito importantes, que nos permitem chegar até os territórios com recursos do BNDES e apoiar iniciativas que tenham esse desenvolvimento sustentável e que tenham principalmente foco no público feminino e na juventude”, afirmou.

Para o consultor de Sustentabilidade da Suzano, Adilson Gonçalves Batista, a atuação conjunta com o ISPN permitiu ampliar o alcance dos recursos e chegar a um número maior de comunidades do que seria possível apenas com a estrutura da empresa.
“A Suzano sempre teve a vontade de acessar mais comunidades, só que, com o recurso e a equipe que tinha, não conseguiria fazer dessa forma. Ao colocar o recurso dentro dessa parceria, conseguimos atingir muito mais comunidades. Foi a primeira experiência da Suzano em fazer uma parceria dessa forma e acho que foi uma grande sacada”, afirma Adilson.

A atuação em rede e o engajamento das comunidades também foram destacados pelo PNUD Brasil. Para o Oficial de Programa Gustavo Matsubara, a parceria com o ISPN, construída há 32 anos, demonstra a importância da articulação entre diferentes atores para que os recursos e as ações de desenvolvimento cheguem aos territórios.
“No contexto da cooperação técnica internacional, nada se constrói sem formação de redes, que, por sua vez, não funcionam sem engajamento local. Criar esses momentos, fazer essa articulação e fazer os recursos chegarem até a ponta é uma das nossas metas. Não existe desenvolvimento próspero e sustentável sem foco nos jovens e nas mulheres”, declara Gustavo.
A oficina Ecos dos Territórios foi um ponto de confluência importante entre os rios que fluem de cada projeto. As águas trazem memórias e aprendizados, e a oficina, por sua vez, é como uma bela cachoeira, um espaço para contemplar tudo o que foi conquistado por meio das iniciativas realizadas pelos povos.
“A ideia do Ecos dos Territórios também é promover uma autoavaliação. A gente tem que olhar para trás e pensar se o que foi planejado deu certo e o que não deu certo, para melhorar a gestão”, avalia o coordenador do Programa Iniciativas Comunitárias do ISPN, Rodrigo Noleto.

Texto: Bruna Braz/Analista Socioambiental do ISPN
Apoio: Ariel Rocha e Amanda Vieira/Assessoria de Comunicação do ISPN